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Riscos globais aumentam em 2019
*Artigo publicado originalmente no Jornal O Imparcial, na edição do dia 13 de Janeiro.

A estabilidade do arranjo econômico global deverá ser testada em 2019. Os Estados Unidos ingressaram no 122º mês seguido de crescimento econômico, algo sem paralelo nos últimos 100 anos. As políticas contracíclicas e monetárias aplicadas nos dois governos de Barack Obama evitaram o aprofundamento da recessão e garantiram retomada da geração de empregos, porém em grande parte em setores de serviços informais e de baixa produtividade. A exportação de empregos industriais para a Ásia e a crescente desigualdade social abriram espaços para o discurso populista e xenófobo que levou à eleição de Trump. Este, vem abusando da redução de impostos sobre as empresas e os indivíduos mais ricos, somadas à ampliação de investimentos públicos em infraestrutura, que vem prolongando o crescimento econômico às custas de crescente inflação e ampliação do déficit comercial.

A guerra comercial com a China também é outro elemento causador de inflação e que coloca riscos à estabilidade do sistema financeiro internacional.

O governo chinês foi surpreendido pela estratégia agressiva de Trump, no que se refere ao contencioso comercial, que causa redução de demanda agregada, com piora nos indicadores de confiança para investir e também na propensão para adquirir automóveis e moradias, por exemplo. De um lado, a China prossegue na implantação de pacote de investimentos superior a US$ 1,0 trilhão, na estruturação da nova Rota da Seda e do Cinturão Marítimo Mundial (do qual o Porto do Itaqui constitui elo importante), corredores logísticos que darão à China acesso privilegiado ao suprimento de matérias primas e energia, além de acesso a mercados consumidores capazes de sustentar a posição competitiva daquele país nos próximos 30 anos.

De outro lado, a estratégia do governo chinês de fortalecer o consumo como forma de compensar a perda de mercados externos, confronta-se com o elevado endividamento das famílias e a fraqueza relativa dos mecanismos redistributivos, a exemplo da Previdência e outras formas de proteção social. A aproximação do aniversário de 30 anos das manifestações na Praça Tienamen, em prol de maior liberdade política, coloca-se como um importante teste de sustentação para o Governo de Xi Jinping.

Na França, tive a oportunidade de acompanhar uma das manifestações dos “Gilets Jaunes” (coletes amarelos), jornadas de protestos semelhantes às ocorridas nas maiores cidades brasileiras em 2013, caracterizadas pela recusa ao alinhamento partidário e que atestam a incapacidade dos sistemas político-partidários de canalizar as frustrações e demandas de grande parte do eleitorado francês. Interessante observar a ação repressiva da polícia e a ação concertada do Governo e da grande mídia daquele país, na subavaliação do número de manifestantes e na construção de uma narrativa na qual a violência nasce da ação dos manifestantes e não, conforme pude constatar em vários episódios, da ação da polícia e de provocadores infiltrados.

2019 trará desafios para o Reino Unido, cuja opção pelo Brexit (saída da União Europeia) causa êxodo de empresas e empregos e encontra na questão irlandesa um impasse. Será, portanto um ano de embates políticos e sociais e deverá ser marcado por perda no dinamismo econômico mundial, com a continuidade da elevação dos juros básicos nos EUA e na União Europeia, e com a ressurgência de movimentos especulativos e crises financeiras.

Para os países latino-americanos, a exemplo do Brasil, 2019 também será um ano de desafios: uma eventual incapacidade do Governo em produzir crescimento efetivo do emprego, do qual depende em grande parte a melhora da situação fiscal, poderá nos fazer especialmente vulneráveis aos movimentos especulativos e disruptivos que deverão se ampliar, principalmente ao longo do 2º semestre do ano.

Artigo do Prof. Dr. Felipe de Holanda